Origens do Carnaval em Taquara-RS

Origens do Carnaval em Taquara

Por Jéssica Ramos e Júlio Bartzen de Araújo.

Apresentação

O projeto Origens do Carnaval em Taquara apresenta o resultado da pesquisa realizada no segundo semestre de 2019, que teve como objetivo geral identificar as principais razões que levaram a festividade folclórica – o carnaval taquarense – considerada uma das atividades locais de maior destaque no Vale do Rio Paranhana, durante décadas, a uma queda tão próxima à extinção.

A pesquisa também buscou conhecer os aspectos cultural, social e econômico do carnaval taquarense ao longo dos anos. O projeto foi proposto pelo carnavalesco e presidente da Escola de Samba Mocidade Independente Jardim do Prado, José Luís Lopes da Silva, sob a coordenação do Coletivo Pró-Cidadania e teve o apoio do curso de História das Faculdades Integradas de Taquara – FACCAT.

Capítulo 1: As origens do carnaval em Taquara

Origens do Carnaval em Taquara-RS

Não há registros precisos do ano em que os carnavais passaram a acontecer em Taquara. No entanto, conforme relatos de carnavalescos locais, os primeiros eventos desse gênero nasceram ainda antes da década de 50, na cidade. Neste período, os bailes de carnaval, realizados nos clubes, eram uma alternativa de entretenimento para famílias inteiras e, especialmente, para os jovens. Eliana Maria Aguiar da Silva, carnavalesca da década de 60 em diante, conta que Taquara era uma cidade em desenvolvimento e o acesso ao litoral, assim como a outras cidades, era limitado. Desta forma, todo mundo se encontrava nas promoções locais.

A gente sabia os carros que tinha em Taquara. Se a gente passasse numa farmácia e visse tal carro ali: - Oh, tem alguém doente aqui, o carro do fulano tá aqui. Era outra realidade. As pessoas participavam de tudo aqui. Os salões eram sempre cheios, bem decorados (Eliana Maria Aguiar da Silva, 2019).

Conforme Maria Ironita da Silva Pacheco, atual presidente da Escola de Samba Unidos da Pinheiro, nos primeiros carnavais de Taquara, os ensaios começavam uns dois meses antes da data dos bailes, e o carnaval acontecia, religiosamente, no dia 28 de fevereiro, independente do dia da semana. Os ensaios eram chamados de “assaltos”, e eram realizados nas casas dos carnavalescos, bem como em espaços públicos, quando combinado com antecedência.

Era lindo da gente ver. O pessoal se deslocava de um lugar ao outro, para os assaltos, de caminhão de carga. O carnaval era dia 28 de fevereiro, no último dia do mês. Era sagrado, não interessava que dia da semana iria cair (Maria Ironita da Silva Pacheco, 2019).

Cláudia Raquel da Silva, também recorda os carnavais de Taquara na década de 50. Embora ela não tenha prestigiado os bailes da época, sempre ouviu os relatos da mãe, que afirmava ter frequentado festas requintadas e elegantes no Clube Comercial e na Sociedade 5 de Maio, onde ela chegou a ser rainha. Cláudia Raquel da Silva conta que os pais amavam os carnavais, e que os eventos eram festas familiares. Os assaltos não perdiam muito para as festas oficiais, segundo ela, pois os pais reuniam uns sete ou oito casais de amigos, montavam os blocos, aqueciam nos assaltos e depois amanheciam nos bailes. “Era muito divertido, lembro-me de ver eles muito alegres”, Cláudia Raquel da Silva.

Antes do encerramento de cada carnaval, ocorria o primeiro ato do carnaval do ano seguinte: a escolha da rainha e da corte do ano posterior. Maria Ironita da Silva Pacheco descreve a mobilização dos carnavalescos da Sociedade Recreativa e Bailante Flor do Sul, mais tarde conhecida como Salão Flor do Sul e, posteriormente, apenas Salão da Dona Palmira, que ela e a família frequentavam. Mas havia também outros clubes que promoviam bailes de carnaval, na década de 50, conforme Maria Ironita da Silva Pacheco. “Havia o Salão Figueira, a Sociedade Recreativa União da Mocidade, o Clube Comercial, a Sociedade 5 de Maio e a Sociedade Atiradores”, descreve Maria Ironita da Silva Pacheco.

Do Salão Flor do Sul, Maria Ironita da Silva Pacheco descreve lembranças que revelam aspectos morais, da época. Relata que as candidatas à corte do carnaval, especialmente a rainha, “não podiam ter um defeito”, no sentido de serem bem vistas pela sociedade. E, caso alguém denunciasse alguma falha das moças, um flagra, mesmo que fosse de uma conversa com alguém considerado imoral, mesmo eleita, ela era desclassificada e substituída. As fantasias da década de 50 – patrocinadas inteiramente pela proprietária do Salão Flor do Sul, dona Palmira, que segundo Maria, comprava rolos de fazenda, em Canoas, Esteio, Porto Alegre, São Leopoldo – seguiam a mesma linha, e não apelavam à sensualidade. (...) as fantasias com aquelas saias de tule, as blusas eram uns blusões bonitos, como se fossem princesas. Deus o livre se a rainha mostrasse uma perna, não tinha nada de sensualidade. Ela tinha que ser bonita por si, e quando se apresentava era uma Deusa. Hoje, tu não sabe diferenciar uma rainha de uma princesa. É tudo igual, andam peladas. Antigamente, não. Eram todas bem vestidas, cheias de brilho. A coroa, todo ano era buscada em Porto Alegre. A coroa ficava de lembrança para a rainha, porque não usavam faixa (Maria Ironita da Silva Pacheco, 2019).

Na Sociedade 5 de Maio e no Clube Comercial, conforme Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer, eram eleitas as cortes dos solteiros e dos casados, respectivamente. Em ambos os locais, conforme descrevem as taquarenses, os preparativos iniciavam com antecedência para dar tempo de organizar as fantasias e os blocos. Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer relata que os foliões compravam tecidos no shopping da cidade, que funcionava no endereço da atual Casa Vidal, e, quando não encontravam tudo o que precisavam, buscavam na capital. Segundo Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer, era tudo muito elaborado, bonito. Dona Celina Lacerda era uma das costureiras, que desenhava e bordava as roupas de blocos inteiros, na década de 60, conforme Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer. Edy Müller, costureira aposentada, também bordou muitas fantasias na década de 60. Segundo ela, as encomendas eram tantas que às vezes ela dispensava algumas clientes, para não comprometer as entregas. Algumas ficavam chateadas e não retornavam, mas o interessante era satisfazer àquelas que conseguiam vaga, pois conforme Edy Müller, as mais organizadas faziam suas encomendas já em novembro do ano anterior ao carnaval. Edy Müller, por sua vez, diz que “dava um dedo” para pegar as encomendas das foliãs. Em partes, pelo prazer de poder executar verdadeiras obras-primas (segundo ela, uma das fantasias que ela fez tinha mais de mil pedrinhas bordadas – “um verdadeiro esplendor”, ela descreveu), mas pelo retorno financeiro também. Ela relata que uma das clientes afirmou que venderia o próprio carro para pagar a fantasia.

Eu me incomodava muito também. Se não fosse meu marido e uma filha minha, que me ajudavam, eu não dava conta. Eu perdi muita cliente porque eu não conseguia mais pegar costura, para dar conta das encomendas do carnaval. Mesmo depois que eu parei de costurar, eu ainda peguei encomendas do carnaval, porque eu gostava muito. Mas, nas últimas, meu marido disse que ia sair de casa e só voltava quando eu entregasse tudo, porque dava muito trabalho. Eu costurava até 2h, 3h. E o que eu ganhei com isso? As recordações, só. Mas com todos os incômodos, ainda foi muito boa a época do carnaval. Eu colocava um fio de estender roupa, que atravessava a casa, e pendurava as fantasias todas. Eu pendurava roupas pela casa toda, porque não podia amassar, né? Se amassasse não dava para passar, por causa do tecido e dos bordados (Edy Müller, 2019).

Quanto à folia, conforme Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer, as cortes eram maravilhosas, tanto a dos solteiros, quanto a dos casados. A programação era de quatro noites seguidas, com bailes, um dia no Clube Comercial, outro dia na Sociedade 5 de Maio, que alternavam as festas. Às crianças, o carnaval era realizado em uma tarde, geralmente na terça-feira, conforme Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer. E todos pulavam carnaval, sábado, domingo à tarde, domingo à noite, segunda e terça.

Eram monumentais os carnavais em Taquara. Vinha muita gente de fora, de Porto Alegre, famílias. Sempre tinha turmas que vinham. Então, era muito gostoso. Era muito divertido. Muitas vezes, tinham turmas que compravam barris de chope, que eram de madeira ainda, botavam na sua mesa e ficavam oferecendo a todo mundo que passava ali. Era tudo muito divertido, tudo muito alegre, não tinha briga. Se tinha, era lá fora. Porque lá dentro era muito alegre, muito gostoso, muito divertido. Era isso os carnavais de Taquara (Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer, 2019).

Alegria e diversão também é o que descreve o taquarense Kerson Vilson Müller, quando lembra dos bailes de carnaval em Taquara. Ele e alguns amigos ganharam destaque nas programações carnavalescas da década de 50, graças à criação do bloco Bola Preta. Segundo ele, não havia muita opção para se divertir na cidade, e o carnaval se tornava uma oportunidade em potencial. A convite de um amigo, ele e outros 14 rapazes formaram um bloquinho e, além de divertirem nos bailes de carnaval de Taquara, representaram a cidade em vários municípios do estado. Segundo ele, dos bailes de carnaval surgiram muitas amizades, além de alguns litros de chope de graça.

Nós fizemos um grupo de uns 15 rapazes e nossa rainha. Nós começamos, no primeiro ano, sem fantasia, só com trajes normais. Em 1958, o Flávio (integrante do bloco), que era natural de Laguna, ele conhecia lá e lá tinha os blocos Bola Preta e Bola Branca. Eles eram muito rivais lá na cidade e estavam bem adiantados em fantasias de luxo naquela época. E daí o Flávio foi lá no ano seguinte e comprou umas fantasias deles do ano anterior, de segunda mão. Então vieram fantasias aqui para Taquara de lá, de segunda mão, mas em bom estado – de veludo, coisas diferentes que não existiam aqui, era novidade (Kerson Vilson Müller, 2019).

Kerson Vilson Müller conta que o bloco Bola Preta, de Taquara, foi convidado para se apresentar em São Francisco de Paula, Novo Hamburgo, São Leopoldo e Porto Alegre. Todos ficavam muito admirados com a produção do bloco e chegavam a duvidar que vinham de um município tão pequeno. Na época, segundo ele, os carnavais de Taquara eram muito famosos, sempre com salões cheios, pois, assim como os taquarenses viajavam, também recepcionavam muitos turistas. Kerson Vilson Müller e os colegas do bloco aproveitaram muito a década de 50, mas acabaram encerrando as atividades em virtude da desistência de alguns componentes. “O pessoal foi casando e parando de pular carnaval”, afirmou ele.

Assim como o bloco Bola Preta, o carnaval em Taquara também teve seus anos dourados, conforme relatam os entrevistados desta pesquisa. Segundo Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer, é difícil afirmar quais décadas se destacaram, pois a sensação é de que cada folião tende a valorizar mais a década em que esteve mais ativo. No entanto, é possível identificar fatos marcantes de cada época. Na década de 60, por exemplo, Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer conta que os clubes de Taquara chegaram a receber fantasias dos carnavais do Rio de Janeiro. Segundo ela, as fantasias eram repassadas aos blocos de Taquara, e algumas figuras de destaque faziam participações especiais nos bailes da cidade. “Clóvis Bornay desfilou a fantasia premiada no carnaval do Rio aqui no 5 de Maio. Não me lembro do ano, mas lembro de que ele se apresentou aqui”, afirma Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer.

Também na década de 60, o uso de lança-perfume era permitido nos bailes de carnaval. Eliana Maria Aguiar da Silva e Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer chegaram a frequentar algumas festas em que os foliões usavam o spray nos clubes. Segundo elas, os carnavalescos borrifavam a substância no ar e se divertiam com a mistura de confetes e serpentinas pelo salão. Eliana Maria Aguiar da Silva conta que os pais não gostavam de ir e ela conseguia foliar na companhia da avó, que era viúva e ia aos bailes encontrar as amigas. Lá, os jovens se reuniam para dançar, ao som das marchinhas da época, e também saborear os cardápios da copa: pastel, refrigerante, cerveja e a tradicional saladinha de bucho.

Na década de 70, o carnaval tomou um novo rumo. Até então, restrito aos salões, clubes e suas respectivas regras, a festa começou a ganhar as ruas. Conforme relatos de carnavalescos da época, os blocos se apresentavam na rua, seguiam até os respectivos salões/clubes e festejavam nos bailes noite adentro. Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer relata que a movimentação era grandiosa. “Era um carnaval, realmente, muito forte. Era muito bom, gostoso, com muitas pessoas”, descreveu ela.

Da década de 70, Cláudia Raquel da Silva – que começou a frequentar os bailes noturnos de carnaval um pouco antes das jovens da época, porque a mãe dela fotografava as festas e a levava junto – lembra apenas das folias infantis. Filha de uma das rainhas do carnaval da Sociedade 5 de Maio, ela também fez história nos bailes, desde a infância. Foi eleita rainha infantil, também na 5 de Maio, e relata que ficou surpresa quando foi anunciada no baile. Anos mais tarde, já na década de 80, a carnavalesca experimentou os primeiros bailes noturnos. Conta que o contexto era bem diferente da realidade vivida pelos pais, e da atual. Segundo ela, na época dos pais, as famílias montavam blocos e iam para os bailes, e, na época dela, os jovens já iam com grupos de amigos, ou sozinhos mesmo. “A gente voltava sozinha, a pé. E eu chegava em casa, acordava a mãe e contava tudo o que tinha acontecido”, explica Cláudia Raquel da Silva.

Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer destaca a tranquilidade da cidade nessa época. Diz que eram feitos bailes de máscaras – um dos preferidos dela e dos amigos – e que todo mundo procurava sair fantasiado, e sozinho, de casa, para não estragar o mistério da festa. Conforme ela, os jovens saíam a pé, curtiam os bailes e depois retornavam sozinhos para casa, sem problema algum. Todos se sentiam seguros em sair para fazer um programa à noite. Confusões eram raras. “Se aconteciam, aconteciam fora dos clubes, porque dentro dos bailes não lembro de ter visto”, afirma Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer.

De acordo com o testemunho dos carnavalescos, as décadas de 50, 60 e início de 70 foram marcadas por bailes de carnaval que enchiam os clubes, salões, e movimentavam a cidade. “Vinha gente de tudo que era lugar. Até de Parobé, que era bem pequena, vinham para Taquara. O carnaval daqui era chuleado, viu?”, conta Eliana Maria Aguiar da Silva. Nessas décadas, um dos destaques era o carnaval do Salão Flor do Sul. Todos os entrevistados guardam alguma recordação. No entanto, como era administrado pela proprietária, Palmira, que acabou adoecendo e passando os negócios a um genro, conforme conta Maria Ironita da Silva Pacheco, os bailes e o próprio Salão findaram as atividades nessa década. (...) um genro da Dona Palmira quis botar o Carnaval de Rua. Ele pegou o Salão (Flor do Sul) pra ele, porque ela estava doente, já não morava mais ali. Deu a casa pra uma filha, e a outra filha foi para Novo Hamburgo. E esse rapaz assumiu tudo, aí decaiu as programações da Dona Palmira. Em vez de ele colocar um bloco da Dona Palmira, ele criou o bloco “Carolina”. Virou uma bagunça, ele levava o pessoal para fora, as gurias começaram a se “debandar”. E aí ele morreu num acidente de trânsito, próximo à antiga Cootal (Maria Ironita da Silva Pacheco, 2019).

Na década seguinte, o carnaval se afirmou nas ruas. O primeiro desfile, conforme os carnavalescos entrevistados, aconteceu em 1986. Ano marcante para todos eles. Nesse carnaval, foliões, remanescentes dos bailes do Salão Flor do Sul, fundaram a Escola de Samba Unidos da Pinheiro. Maria Ironita da Silva Pacheco foi convidada para integrar a diretoria, mas diz que, de início, apenas agradeceu. Acompanhava e ajudava, como podia, já que um dos filhos participava da Escola e ela não ficava tranquila enquanto não o via chegar dos ensaios. “Meu velho (esposo) me orientou a participar, porque quando eu não ia junto, eu não dormia até meu filho voltar. Esperava, espiando na rua”, conta Maria Ironita da Silva Pacheco. Nesse carnaval, nasceram outras escolas também. José Luís Lopes da Silva, popularmente conhecido por Zé Lopes, diz que foi o primeiro carnaval dele, e que desfilou pela Escola de Samba União de Bairros, também de remanescentes dos carnavais do Salão Flor do Sul. “O fundador foi Pedro Teixeira”, lembra José Luís Lopes da Silva. E, além das escolas independentes, os clubes também colocaram blocos nas ruas. Cláudia Raquel da Silva conta que foi rainha dos solteiros, pelo Clube Comercial. Ela relata que, assim como o Salão Flor do Sul encerrou as atividades, os clubes já não andavam no mesmo ritmo e ânimo. Segundo a taquarense, o convite para que ela fosse rainha daquele ano já era uma estratégia para mobilizar os carnavalescos, uma vez que o carnaval no Clube estava decaindo e as pessoas pareciam desmotivadas. Porém, nas ruas, o carnaval daquela década deixou belas recordações, conforme Cláudia Raquel da Silva.

Meu Deus do céu, era um transtorno, fechava aquela rua do centro inteira. Vinha gente de São Leopoldo, vinha de Osório, bloco de Osório, Novo Hamburgo, e mais os blocos daqui. Tinha o bloco da Pinheiro Machado. O Carnaval era um acontecimento. Era mesmo um evento cultural muito marcante na cidade. Taquara era conhecida pelos carnavais. E, como eu posso dizer? Não só pelos carnavais. Tudo parecia funcionar. As boates de Taquara eram famosas na região também (Cláudia Raquel da Silva, 2019).

Com os holofotes na “avenida” – rua Júlio de Castilhos, onde ocorriam os desfiles – houve uma movimentação intensa dos carnavalescos, especialmente nas décadas de 90 e um período dos anos 2000. José Luís Lopes da Silva, que estreou no carnaval de 1986, pela União de Bairros, desfilou em 1992 pela Escola Infantil Crianças, o Futuro do Brasil. Segundo ele, a Escola durou apenas um ano. Em 1996, José Luís Lopes da Silva relata que os pais dele, Valdemar Ramos da Silva e Regina Lopes da Silva, fundaram outra escola, a Império da Rio Grande. Mandaram fazer instrumentos, compraram os equipamentos necessários e colocaram uma escola completa, com as alas organizadas, para desfilar. A Império durou quatro anos. Dessa época, José Luís Lopes da Silva relata que, o que deixava a desejar, era o suporte da administração pública, embora o secretário de cultura desse período fosse bastante ativo e incentivasse as escolas de samba. Já da parte dos carnavalescos, a entrega era total. O taquarense conta que a pessoas trabalhavam fora, em turnos integrais, e depois do expediente saíam, a pé, para os ensaios. “O pessoal, na maioria dos casos, tinha que se deslocar ao outro lado da cidade para ensaiar. Mas todo mundo ia feliz, tinha entrega”, descreve José Luís Lopes da Silva. O carnavalesco lembra que se apaixonou pelo carnaval ainda criança. Um irmão mais velho dele tocava na Escola Unidos da Pinheiro e ele ficava na expectativa de o acompanhar. Ele relata que aprendeu muito de música nos ensaios, e o carnaval dessa década era “quente”.

O carnaval nessa época, aqui em Taquara, desfilava de dez a 12 escolas de samba. O carnaval, nessa época, fervia, era muito famoso. Seu Emílio, que era secretário de cultura, incentivava muito as escolas. Vinham escolas do grupo especial de Porto Alegre. Império do Sol, Acadêmicos de Gravataí, Imperatriz Leopoldense, Protegidos da Princesa Isabel, Cruzeiro do Sul, Portela do Sul, Os Marujos, Os Leões da Feitoria, Gladiadores, então, muitas dessas escolas vinham e, quando a gente ia para lá, ficava sabendo que Taquara era muito conhecida pelo carnaval. As pessoas procuravam nossos contatos para conseguir desfiles em Taquara e do pessoal de Taquara (José Luís Lopes da Silva, 2019).

José Luís Lopes da Silva descreve que os carnavais de rua sempre foram muito dependentes da Administração Municipal. Algo que, segundo ele, era negativo, já que os carnavalescos ficavam na expectativa do resultado das eleições para se organizarem para os desfiles. “Se prefeito tal for, tem carnaval, se não for, não tem. Era difícil”, relata José Luís Lopes da Silva. Negativos também eram os conflitos entre os próprios carnavalescos, conforme descreve Maria Ironita da Silva Pacheco. Ela, que inicialmente recusou o convite para integrar a diretoria da Escola Unidos da Pinheiro, acabou se rendendo ao pedido dos carnavalescos e assumiu a presidência da escola em 1990. A taquarense lamenta que os carnavalescos, em vez de se unirem e reforçarem a Unidos – que segundo ela crescia muito na época – deram espaço a ciúmes e acabaram espalhando os integrantes, muitos em outras escolas. A presidente da Unidos da Pinheiro relata que a escola sofreu muitas injustiças, lutando para se manter de pé. E que, apesar de perceber que a escola foi perseguida por ser uma referência local, percebe que os carnavalescos em geral não são reconhecidos como merecem. Pelo contrário, muitos ainda enxergam os grupos das escolas de forma pejorativa, como se não trabalhassem e contribuíssem com o crescimento da cidade. José Luís Lopes da Silva também denuncia o preconceito de muitos em relação ao carnaval. Ele que ajudou a fundar a Mocidade Independente Jardim do Prado, em 2003, diz que a escola viveu anos dourados, mas sempre enfrentou episódios de injustiça por parte da população que não gosta, ou, simplesmente, não conhece o carnaval. José Luís Lopes da Silva relata que foi com a Mocidade Independente que ele viveu as melhores épocas do carnaval taquarense. Isso, nos anos 2000. O carnavalesco afirma que a Mocidade Independente marcou os desfiles de Taquara, e ganhou espaço em carnavais de outras cidades, tais como Sapiranga, Estância Velha, São Francisco de Paula, Canela, e Arroio Teixeira.

Quando fundamos a Mocidade Independente Jardim do Prado, fomos a primeira escola do município a botar carro alegórico na Avenida. Antes, as alegorias eram puxadas por trator e caminhão. Nós fizemos um carro alegórico, com pessoas em cima, outras empurrando, e uma alegoria do símbolo da nossa escola – uma águia. Foi o primeiro da história, assim (José Luís Lopes da Silva, 2019).

De acordo com José Luís Lopes da Silva, até 2009 o carnaval de Taquara era um atrativo na região. Os desfiles lotavam, atraindo carnavalescos e foliões não só da cidade, como de municípios da região toda. Segundo ele, infelizmente, depois de 2010, as coisas foram mudando. Houve um declínio no carnaval e 2014 foi o último desfile que a Mocidade Independente desfilou com carros alegóricos na cidade. Depois desse ano, o carnaval acabou se transformando em Muamba, segundo ele, na esperança de se reinventar e não deixar o legado cultural, social e econômico, da festa, alimentada por décadas, acabar.

Capítulo 2: Carnaval em declínio: aspectos que influenciaram

Origens do Carnaval em Taquara-RS

Questionados sobre os possíveis motivos que levaram o carnaval de Taquara (outrora considerado uma das principais festas locais) à sua quase extinção, os carnavalescos – entrevistados na produção desta pesquisa – descreveram inúmeras situações, que seguem listadas abaixo:

• Influência religiosa: Conforme José Luís Lopes da Silva, muitos carnavalescos acabaram se convertendo ao cristianismo, especificamente às igrejas evangélicas, e deixaram de frequentar os carnavais, e também de participarem de escolas de samba. José Luís Lopes da Silva explica que a maioria dos carnavalescos segue religião de matriz africana, de Umbanda e Nação, mas muitos migraram para o cristianismo nos últimos anos e isso acabou refletindo no carnaval também;

• Falta de incentivo e apoio do poder público: Segundo José Luís Lopes da Silva, as escolas investiam muitos recursos nos carros alegóricos, fantasias, baterias, e o valor de apoio do poder público, quando acontecia, acabava não cobrindo as despesas dos carnavalescos. Se tornava um prejuízo. Tanto, que os grupos que ainda defendem o carnaval, já se organizam de forma mais independente. Nesse sentido, José Luís Lopes da Silva e outros carnavalescos apontam também a falta de suporte no que diz respeito à segurança. O carnaval, segundo ele, foi negligenciado nesse sentido, com pouco policiamento, ou atenção apenas na rua onde ocorria o desfile;

• Preconceito e falta de informação: Tanto José Luís Lopes da Silva, quanto Maria Ironita da Silva Pacheco denunciam os preconceitos vivenciados pelos carnavalescos de Taquara, que se viam injustiçados, em diversas ocasiões, por situações que nada tinham a ver com os integrantes das escolas de samba. José Luís Lopes da Silva explica que muitas pessoas difamam o carnaval por reunir muitas pessoas e, literalmente, gerar folia. No entanto, ele defende que o carnaval é uma festa cultural, como qualquer outra, da cultura gaúcha ou alemã, por exemplo. A diferença é que, como os desfiles ocorrem em local público e aberto, pessoas que não gostam de carnaval têm livre acesso e acabam gerando desconfortos, dos quais os carnavalescos e foliões acabam sendo responsabilizados. José Luís Lopes da Silva lembra que, na noite de um dos últimos desfiles, por exemplo, um homem acabou morto.

A briga deles tinha acontecido dias antes, num bairro distante do Centro. Eles resolveram acertar contas justo na noite do carnaval, e a fama de violência ficou sobre o evento. Um exemplo de injustiça que acontece com os carnavalescos, porque nenhum deles, nem vítima, nem agressor eram envolvidos com o carnaval. Se encontraram entre o público que só queria prestigiar o evento (José Luís Lopes da Silva, 2019).

• Desenvolvimento urbano e acesso a alternativas distintas de entretenimento: Eliana Maria Aguiar da Silva e Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer apontam o desenvolvimento urbano e o acesso a alternativas distintas de entretenimento como aspectos que podem ter influenciado para o declínio do carnaval em Taquara. Ambas relatam que nas primeiras décadas, as programações dos Clubes e salões locais eram as únicas atrações para os moradores da cidade e região, já que os cidadãos dos municípios vizinhos se deslocavam a Taquara para prestigiar os eventos da cidade. Eliana Maria Aguiar da Silva diz que eram poucas as pessoas que tinham recursos para ir para o litoral, por exemplo. Então, a diversão acontecia dentro das possibilidades. Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer considera que os clubes – referências de diversão e cultura em outras décadas – não acompanharam o ritmo da cidade e acabaram se tornando obsoletos, o que pode ter influenciado na desmotivação dos carnavalescos também.

Hoje em dia, dificilmente alguém vai pagar mensalidade num clube para tomar banho de piscina, ou jogar tênis. É preciso acompanhar a necessidade e expectativa das pessoas, dos sócios. Eu lembro que os clubes davam bailes lindos, não apenas os de carnaval. Os pais ficavam no mezanino, observando os filhos dançarem lá embaixo. As sociedades eram sempre lotadas, muito diferente de nossa atual realidade (Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer, 2019).

• Perda de costumes, conflitos e estado civil: José Luís Lopes da Silva afirma que, curiosamente, um dos fatores que influenciou na desistência de muitos carnavalescos foi o estado civil. Ele explica que muitas pessoas que participavam das escolas de samba acabaram saindo depois de iniciarem um relacionamento afetivo, ou casarem. “Muitos têm ciúmes dos parceiros e param de ir para o carnaval depois que começam a namorar, ou casam”, conta ele. Os conflitos entre os próprios carnavalescos também são apontados como motivos para o declínio do carnaval. Maria Ironita da Silva Pacheco descreve que muitos sentem inveja uns dos outros e acabam minando discórdia dentro das escolas, não percebendo que prejudicam o carnaval como um todo. Tanto Maria Ironita da Silva Pacheco, quanto José Luís Lopes da Silva também afirmam que o carnaval sofreu queda em virtude de uma transformação social e cultural, que ocorreu com o passar dos anos. Segundo eles, o pessoal das primeiras décadas foi morrendo, e as novas gerações já não valorizam a cultura carnavalesca como acontecia antes. “O pessoal se esforçava para fazer o carnaval, fosse no salão ou na rua. Era tudo decente. Hoje os jovens não se importam muito, e querem coisas mais modernas. Outros tempos”, diz Maria Ironita da Silva Pacheco.

A sociedade, em si, foi se perdendo, as famílias foram se encolhendo em casa, até pela segurança que não existe mais. Antes, nós saíamos mascarados na rua, e íamos sozinhos, eu me lembro, sem ninguém mexer com a gente. Sozinha, para não mostrar de onde eu estava vindo, e tal. Então, tinha aquela expectativa. Mas hoje tu vai fazer isso? Não pode. Então, acho que por isso os carnavais foram se perdendo (Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer, 2019).

Capítulo 3: Clubes taquarenses: segregação racial, social e de gênero

Origens do Carnaval em Taquara-RS

Com a emancipação (1886), urbanização e bom desempenho econômico, Taquara começava aflorar culturalmente. Os colonos alemães fizeram a frente, fundando sociedades com desejo de retomar as práticas festivas de seu país de origem, Germânia. Em Taquara, surgiram várias sociedades de origem alemã, das quais se destacam:

• 1895: Deutscher Männerbund (Associação Alemã de Homens) – Taquara. Mais tarde, tornou-se Sociedade 5 de Maio;

• 1914: Sociedade Atiradores de Taquara – Schützenverein (Clube do Tiro);

• 1917: Clube Comercial de Taquara.

Estas entidades promoviam, tradicionalmente, os bailes de carnaval, porém era permitida a entrada, exclusivamente, de pessoas com descendência alemã, sendo isto estabelecido nas cláusulas estatutárias, no momento da fundação, barrando, especialmente, os negros. Algumas sociedades não permitiam nem mesmo a entrada de mulheres, como é o caso da Sociedade Atiradores de Taquara e da fase inicial da Sociedade 5 de Maio.

Ana Lúcia Holmer Bauer Schweitzer relata que, ainda na década de 60, o acesso dos negros era restrito no Clube Comercial, Sociedade 5 de Maio e Atiradores. Segundo ela, o bloco do Salão Flor do Sul (Palmira) – criado por negros e para negros da época de sua fundação – era convidado para se apresentar no Clube Comercial, mas os carnavalescos entravam, se apresentavam e voltavam para o Salão Flor do Sul. Não podiam pular carnaval junto com blocos do Clube. De acordo com ela, o tratamento era retribuído pelos negros no Salão Flor do Sul, que não permitia que os brancos prestigiassem os bailes inteiros.

Eliana Maria Aguiar da Silva lembra as restrições dos negros nos bailes dos clubes dos brancos, como eram chamados o Clube Comercial, Sociedade 5 de Maio e Sociedade Atiradores. Ela conta que apenas apresentavam o bloco e saíam. Já no Salão Flor do Sul, dependendo da época e da companhia, era possível prestigiar as programações. Ela relata que tinha amigas “de cor” e frequentava todos os salões e clubes que podia. O importante, para ela, era se divertir. “Mas existia bastante divisão de espaço entre brancos e cidadãos de cor”, descreve Eliana Maria Aguiar da Silva.

As mulheres também tinham que seguir a uma série de regras, caso quisessem aproveitar as programações organizadas na cidade, conforme relata Maria Ironita da Silva Pacheco. Ela, que também sofreu restrições por consequência da cor – “descascada eles me chamavam” – conta que, no Salão Flor do Sul, por exemplo, cansou de testemunhar moças perderem, literalmente, os dentes por recusarem um parceiro para dançar.

Eu adorava dançar e sempre fui bem tranquila com todos, dançava com feio, bonito, bêbado. O importante era me divertir, e nunca tive problemas. Mas eu era bem orientada por um cunhado meu que tocava num conjunto de música. É que funcionava assim, se a moça estivesse no salão e um rapaz a convidasse para dançar e ela recusasse, não poderia aceitar outro convite, senão ofendia o primeiro rapaz e ele poderia até bater nela, caso alguém não intervisse na situação. Cansei de ver, meu próprio marido surrar as meninas e arrumar confusão. Era muito machismo (Maria Ironita da Silva Pacheco, 2019).

Além da emancipação de Taquara, o Brasil recentemente havia abolido a escravidão (1888) e proclamado a república (1889). Mesmo com alforria, era difícil viver no Brasil. A constante segregação, fez com que o negro liberto organizasse sua própria vida social, fundando assim agremiações onde buscava dividir suas alegrias e tristezas, festejar, resolver problemas comuns e, sobretudo, preservar suas tradições. As associações dos negros eram locais de resistência cultural.

Em Taquara, especificamente na localidade de Parobé (que se emancipou apenas em 1982), fundou-se, em abril de 1908, a Sociedade 13 de Maio, sendo sócios-fundadores Serafim da Rosa, João Marcelino Filho, Crescêncio da Silva, Modesto da Silva, Antônio Cook e Arlindo Bento. Esta associação tinha função recreativa, eram realizados alguns bailes anuais, além de comemorar a data de fundação e o 13 de maio – abolição da escravatura. Seu primeiro presidente foi o Antônio Marcelino.

No dia 16 de abril de 1918, fundou-se, em Taquara, uma nova agremiação com mesma função e nome - 13 de Maio – presidida por Crescêncio Adão Santos, juntamente com sua diretoria, formada por João José de Mello, Eugênio dos Santos, João Fortunato, Cristiano José da Silva e Eduardo da Silva.

A frequente coincidência de datas na realização de promoções, fez com que as duas diretorias entrassem em acordo e fizessem a fusão das entidades que passou a ter sede em Taquara, com o mesmo nome – Sociedade 13 de Maio. Esta agremiação situava-se na Travessa Bauermann, onde permaneceu até meados de 1930, quando o terreno foi vendido à Viação Férrea. A sede da Sociedade passou a ser na rua Marechal Floriano, onde residia João Silveira Bento, conhecido popularmente como “João Figueira”, permanecendo por pouco tempo nesse local, sendo dissolvida anos depois. “Figueira” continuou com os bailes mesmo não existindo mais a agremiação. A sede da extinta Sociedade 13 de Maio passou a ser conhecida como “Salão do Figueira”.

Conforme SOUZA (1961), em 25 de janeiro de 1948, na Rua Ernesto Alves esquina com a Rua Rio Branco, foi fundada a Sociedade Recreativa União da Mocidade, sendo sua diretoria composta por Acylino Pereira de Oliveira (presidente), Dorvalino Luiz da Silveira (vice-presidente), Dorvalino Goulart Sant’Anna (1º secretário), Germano da Silva Fontes (2º secretário), Adão Machado e João Rosa (tesoureiros) e Pedrolino da Costa (orador). O conselho deliberativo era formado por Cristiano da Silva, Aristides Pedro Rosa e Osmar dos Santos. Eram realizados, anualmente, três bailes aos associados e a festa de comemoração da fundação da entidade. Esta agremiação ficou conhecida popularmente como “Sociedade dos Morenos”.

Além destas duas entidades, em 28 de abril 1956 fundou-se em Taquara a Sociedade Recreativa Flor do Sul, por Palmira de Souza Lopes. Esta agremiação ficou conhecida popularmente como “Salão da Dona Palmira”. A Sociedade dos Morenos e os Salões da Dona Palmira e João Figueira marcaram a história do município, em uma época de racismo truncado, pois oportunizavam aos negros o desfrute de bailes, carnaval e, sobretudo, de sua cultura, já que as sociedades de origem alemã barravam regimentalmente a entrada de negros.

Segundo Maria Ironita da Silva Pacheco, Palmira foi uma das grandes defensoras dos negros e pobres da cidade. Além do acesso às atrações culturais, programadas por ela no Salão Flor do Sul, Palmira garantia moradia, emprego e vestimentas para uma porção de pessoas marginalizadas, durante décadas. Maria Ironita da Silva Pacheco relata que Palmira ficou viúva e não teve condições de cuidar dos negócios e filhos sozinha, precisou colocar todos a trabalharem para ajudar. Foi quando convidou a mãe de Maria Ironita e o pai, que trabalhava na estação ferroviária, para ajudar com o Salão Flor do Sul e um bar que ela tinha. Em contrapartida, disponibilizou moradia para a família do casal.

Maria Ironita da Silva Pacheco descreve que Palmira era uma mulher de destaque, não sabia ler nem escrever, mas era muito boa administradora, além de ser uma mulher muito ativa. Segundo a taquarense, Palmira ajudava muita gente, abrigando e empregando pessoas pobres, em casinhas que ela tinha para alugar. O carnaval era uma das manifestações culturais que davam voz e lugar aos negros e pobres, discriminados nos outros clubes e sociedades. Com o tempo, Palmira criou uma relação mais próxima com os administradores do Clube Comercial e trocaram apresentações, mas sempre restritas ao momento, conforme conta Maria Ironita da Silva Pacheco.

Os ritmos dos negros caíram no gosto dos clubes “dos brancos” com o passar do tempo e isso demandava que os músicos tivessem domínio em instrumentos de percussão, o que historicamente sempre foi mais aflorado no negro. Os grupos musicais que animavam os salões “dos brancos” acabavam sendo compostos em sua maioria por negros, era normal ver dois ou três negros compondo um grupo musical de carnaval.

A musicalidade do negro que cativou diferentes extratos sociais e a evolução do carnaval que passou a ocorrer nas ruas foi, finalmente, um ato de inclusão social e racial, um espaço democrático, para todos os povos, antes segregados na história de Taquara.

Metodologia

Origens do Carnaval em Taquara-RS

O projeto Origens do Carnaval em Taquara buscou contextualizar a história cultural, social e econômica das festividades de carnaval no município, usando como metodologia de pesquisa, entrevistas com taquarenses, revisão bibliográfica e levantamento de material iconográfico que será apresentado através de exposição.

Além de dialogar com as fontes e com a bibliografia, parte do processo de elaboração desta pesquisa buscou estabelecer vínculos entre o passado e o presente das festividades de carnaval em Taquara/RS, onde observa-se nas últimas décadas um declínio da manifestação folclórica, que já foi destaque entre negros e brancos, pobres e ricos, “gregos e troianos”.

Para pesquisar sobre o passado, quando seus traços estão apagados, algumas vezes foi necessário recorrer ao presente, traçar continuidades, e principalmente constatar a permanência de algumas agremiações que se mantiveram vivas de alguma forma nos personagens da narrativa aqui apresentada.

No primeiro capítulo foi realizada uma pesquisa de campo, através de entrevista com foliões, costureiras de fantasias de carnaval e presidentes das escolas de samba ainda existentes. Esses personagens aparecem em forma de textos, analisados alternadamente, formando uma “linha do tempo” que nos dá base para pesquisar sobre este tema pouco explorado e com raros registros históricos. A narrativa traz características históricas dos carnavais de Taquara.

Depois, no segundo capítulo, tratamos de tentar responder à pergunta orientadora desta pesquisa “Como uma festividade folclórica realizada na comunidade com apoteose durante tantas décadas está hoje quase extinta?”, investigando, através de diálogos com os carnavalescos, razões que pudessem explicar o declínio do carnaval.

E por fim, no terceiro capítulo, apresentamos uma revisão bibliográfica sobre as sociedades que fomentavam o carnaval, contextualizando-as, e apresentando alguns personagens importantes que surgem nos textos pesquisados e que mesclam suas vidas com as festividades de carnaval em Taquara, como é o caso de “Dona Palmira”.

Conclusão

Origens do Carnaval em Taquara-RS

Com base nos relatos dos carnavalescos, entrevistados durante esta pesquisa, e na revisão bibliográfica, é possível afirmar que o carnaval em Taquara alcançou dimensão considerável em determinadas épocas e décadas, levando a importância do nome da cidade a diversos municípios de todo o estado. A programação carnavalesca, inicialmente, atraiu a população, principalmente pela falta de acesso a outros eventos e cidades. Os bailes nos clubes e salões fizeram do carnaval uma cultura em Taquara, atraindo carnavalescos e foliões de diversas cidades e mobilizando famílias inteiras de taquarenses.

Também pode-se afirmar que a transição dos bailes de carnaval para o carnaval de rua marcou uma revolução social, racial e de gênero, no município. Isto porque Taquara carregou, por décadas, particularidades de seus colonizadores alemães, que contribuíram à segregação social e, principalmente, racial, diluída na folia e cultura do carnaval de rua, em 1986.

E, dando conta do objetivo geral desta pesquisa, identifica-se que o declínio do carnaval em Taquara teve inúmeras influências, tais como o próprio desenvolvimento da cidade. O acesso a recursos que possibilitaram aos munícipes prestigiarem outros eventos e cidades, como as do litoral, já que o carnaval acontece em plena temporada de verão, também é apontado como um dos motivos que influenciaram na queda do carnaval taquarense.

Além destes, questões religiosas e a perda de costumes, que foram sendo esquecidos com a morte dos carnavalescos das primeiras décadas, também foram citados por entrevistados desta pesquisa. A falta de incentivo do poder público, a discriminação com os carnavalescos e a falta de informação, por parte de pessoas que não gostam, ou apenas desconhecem a cultura carnavalesca, são outros fatores que castigaram o carnaval de Taquara ao longo dos anos, segundo os entrevistados nesta pesquisa.

Não obstante, há escolas na cidade que acreditam no carnaval de Taquara, como a Unidos da Pinheiro, presidida por Maria Ironita da Silva Pacheco, e a Mocidade Independente Jardim do Prado, presidida por José Luís Lopes da Silva, e que defendem o evento como uma atividade cultural e histórica do município. Descrevem o carnaval como uma importante manifestação, capaz de compartilhar conhecimento sobre música, história e, principalmente, igualdade social, racial e de gênero.

Referências

Origens do Carnaval em Taquara-RS

AZEVEDO, Marcos Aurélio. Conhecendo, registrando e preservando a cultura musical do negro no município de Taquara-RS (1888-1940). Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em História. Faculdades Integradas de Taquara – FACCAT. Taquara, 2010.

BARDONI, Edianie Eliomara Azevedo. Flor do Sul e amnésia cultural: um clube de negros, uma geração e o esquecimento – Taquara/RS – 1975/2014. Protestantismo em Revista, São Leopoldo, v. 43, n. 01, 2016. Disponível em: . Acesso em 8 de março de 2020..

MÜLLER, Edy. Entrevista para a pesquisa As Origens do Carnaval em Taquara. Taquara, 2019 [novembro de 2019]. Entrevistadora Jéssica Ramos.

MÜLLER, Kerson Vilson. Entrevista para a pesquisa As Origens do Carnaval em Taquara. Taquara, 2019 [dezembro de 2019]. Entrevistadora Jéssica Ramos.

PACHECO, Maria Ironita da Silva. Entrevista para a pesquisa As Origens do Carnaval em Taquara. Taquara, 2019 [novembro de 2019]. Entrevistadora Jéssica Ramos.

SCHWEITZER, Ana Lucia Holmer Bauer. Entrevista para a pesquisa As Origens do Carnaval em Taquara. Taquara, 2019 [dezembro de 2019]. Entrevistadora Jéssica Ramos.

SILVA, Eliana Maria Aguiar. Entrevista para a pesquisa As Origens do Carnaval em Taquara. Taquara, 2019 [agosto de 2019]. Entrevistadora Jéssica Ramos.

SILVA, Cláudia Raquel. Entrevista para a pesquisa As Origens do Carnaval em Taquara. Taquara, 2019 [setembro de 2019]. Entrevistadora Jéssica Ramos.

SILVA, José Luis Lopes. Entrevista para a pesquisa As Origens do Carnaval em Taquara. Taquara, 2019 [dezembro de 2019]. Entrevistadora Jéssica Ramos.

SOUZA, Natalino Teixeira de. O Africano no desenvolvimento do Rio Grande do Sul. In: CONGRESSO TRADICIONALISTA GAÚCHO, 8., 1961, Taquara. 50 anos Carta de Princípios e 8º Congresso Tradicionalista. Taquara: Danna Produções Ltda, 2011. p. 55 - 66.

Taquara, 2020.

Origens do Carnaval em Taquara-RS